Sempre gostei de ler, ouvir e ver histórias. Na adolescência, ao ler o poema “Navegar é Preciso” de Fernando Pessoa, me pegava imaginando como seria o processo criativo de alguém que provoca a reflexão sobre um tremendo dilema da existência humana, com apenas um verso “Navegar é preciso; viver não é preciso”. Um jogo de dupla interpretação, que ao mesmo tempo celebra a existência humana; uma forma de tornar a vida grande, mesmo que se não a viva, mesmo que se a perca a favor da humanidade.

Trezentos anos antes, Luiz de Camões, além de inspirar Fernando Pessoa com o mesmo verso, propôs idêntica reflexão em Os Lusíadas, e se referiu ao desafio dos navegadores lusitanos diante de um mundo de água inteiro à frente, “em mares nunca de antes navegados”, afinal, mar calmo nunca fez bom marinheiro.
Camões buscou inspiração na frase em latim com que o general romano Pompeu, que viveu no século I a.C., inspirou os soldados a embarcar em uma arriscada missão, vencendo o medo das tempestades “Navigare necesse, vivere non est necesse”, ou “navegar é necessário, viver não é necessário.

No século XIV, o poeta italiano Petrarca substituiu necessário por preciso, daí o duplo sentido emprestado por Camões.
Em meio às conexões, Camões também inspirou a música em tempos mais recentes. Monte Castelo, de Renato Russo, reproduz os versos: “Ainda que eu falasse a língua dos homens e falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria”. É curioso notar que a conexão se estende, pois os versos já estavam na Bíblia, na 1ª Epístola de São Paulo aos Coríntios, onde originalmente a palavra caridade é utilizada no lugar de amor, a necessária conexão para a vida.

Ainda na música, lá pelos anos 1970, mais uma vez navegar, dessa vez pelos versos da linda canção de Caetano Veloso, Os Argonautas, desafiando a censura do período da ditadura, por meio de uma primorosa construção poético-musical, que questiona: “navegar é preciso?”, entoada como um fado carregado do lirismo tão intenso quanto o do Fado Tropical, de Chico Buarque de Hollanda.

Conexões! Conexões!

A teia se estende cada vez para mais distante de seu centro, aquele pedacinho pequeno e controlável, que confere segurança, mas carece de encantamento: a zona de conforto.
A teia que se ouve – ainda antes de se ver – tecida nos versos de João Cabral de Melo Neto, em Tecendo a manhã “um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos. De um que apanhe esse grito que ele e o lance a outro” e o poema segue com tramas, urdiduras e nós que lançam o grito do galo para cada vez mais além. A mim lembra muito o fenômeno das redes sociais, nossos gritos por espaços e mundos.

Mesmo o mais inusitado e eventualmente desconectado evento de seu passado influenciará seu futuro. Em 12 de junho de 2005 Steve Jobs proferiu um discurso para os formandos da Universidade de Stanford nos EUA, destacando 3 itens:

1. Ligar os pontos: passado e futuro conectados

2. Amor e perda: descobrir cedo o que se ama fazer, mas entender que se pode perder

3. A morte: maior invenção da vida para renovar o mundo

Mas então, de que é feito esse mundo? De precisão ou de necessidade? É preciso ou preciso?
Em conexão com as telas. No filme “Quem quer ser um milionário?”, de 2008, que levou 8 dos 10 prêmios Oscar a que concorreu, o jovem Jamal Malik experimenta os itens 1 e 2 da lista de Jobs, mas ao mesmo tempo em que vive os efeitos positivos disso, paga um preço alto, em sua participação em cada etapa do programa de TV que dá nome ao filme.

O dilema da existência também é discutido no filme Blade Runner de 1982, dirigido por Ridley Scott, baseado no livro homônimo de Phillip K. Dick, na célebre frase de Roy, o replicante prateado: “todos esses momentos ficarão perdidos no tempo, como lágrimas na chuva”. Forte e intenso.
Li recentemente que a frase foi um improviso do ator Rutger Hauer, no momento da filmagem da cena, e mantida pelo diretor.

Ridley Scott também dirigiu o comercial de TV 1984, considerado um ícone da publicidade, título do livro de George Orwell, e que foi ao ar num dos intervalos comerciais da final do Super Bowl daquele ano, para anunciar o lançamento do computador pessoal Macintosh.

Se você já usou um videogame, especialmente jogos em primeira pessoa, saiba que toda a estética, linguagem visual, cenários e enquadramentos, são os mesmos que Scott utilizou tanto em Blade Runner, quanto em 1984. E se você imagina que Big Brother é uma invenção da Globo, lembro que se trata de fato do Grande Irmão, um sistema de monitoramento de pessoas feito pelo governo, enredo do livro 1984.

Pode não parecer, mas estamos muito mais conectados a Scott, à Apple, a Steve Jobs, ao dilema da existência, ao BBB, aos poemas, músicas, filmes e tantas outras formas de expressão da genialidade humana do que imaginamos.
Um estudo científico de Stanley Milgran em 1967, criou a teoria dos 6 graus de separação, que afirma que cada indivíduo do planeta estaria separado de qualquer outro, por até 6 enlaces de amizade. Por exemplo, eu, você e qualquer pessoa estamos distantes em conexão no máximo por 6 amigos até o Papa, o Neymar ou o ator Kevin Bacon. Pensando assim, não seria estranho estarmos também conectados às ideias de Pessoa, Camões, João Cabral ou Karol Conka.

Para encerrar, dos presentes que a vida e as conexões me proporcionaram, o mais valioso talvez tenha sido aprender a viver sem me manter abraçado a verdades absolutas. Quando vou ao cemitério e leio numa lápide o nome da pessoa, seguido dos anos de seu nascimento e morte, imagino que tanto um quanto o outro são menos importantes que aquele hífen que separa ambos, porque é lá naquele hífen que ficou escrita a história da vida da pessoa. E retornamos a Pessoa, que se inspirou em Camões, que inspirou Caetano.

Como dizia Chorão, vocalista do Charlie Brown Jr., “Você nasce sem pedir e morre sem querer. Aproveite o intervalo”, ou aproveite o hífen, eu diria. Imagino que essa frase não é original dele, mas se eu for fuçar vou começar outra história, afinal, se você pretende deixar sua marca no universo, aqui vai uma sugestão: conectar é sempre preciso; viver também é.

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